Quatro horas a menos por funcionário: o que o fim da escala 6×1 muda na conta das empresas de São José
AEMFLO e CDL São José apontam custo de contratação, reorganização de turnos e risco de repasse aos preços; mudança chega com o emprego local em ritmo mais lento.
Uma loja com dez funcionários que hoje cumprem 44 horas semanais perde 40 horas de trabalho por semana quando a jornada cair para 40. É o equivalente a um empregado em tempo integral a menos, para o mesmo horário de atendimento. A conta simples ajuda a medir o que o fim da escala 6×1, aprovado pelo Senado na quarta-feira (14), representa para o comércio e os serviços de São José, na avaliação da AEMFLO e da CDL São José.
A Proposta de Emenda à Constituição foi aprovada por 75 votos a 1, em dois turnos, e segue para promulgação. O texto reduz a jornada máxima de 44 para 40 horas, sem corte de salário, e garante dois dias de descanso por semana. A transição dura 14 meses: dois meses após a promulgação, o limite é de 42 horas; ao final do período, de 40.
A mudança chega a uma economia local ativa, mas com o emprego em ritmo mais lento. Segundo a oitava edição do Boletim Econômico da AEMFLO e da CDL São José, o saldo entre aberturas e fechamentos de empresas no município foi de 3.548 no primeiro semestre, 16,5% acima do mesmo período de 2025. O saldo de vagas formais, porém, ficou em 1.235, queda de 44,3% na mesma comparação. Comércio e serviços responderam por 1.154 dessas vagas, mais de 93% do total, e são setores que serão diretamente afetados pelo fim da jornada de 44 horas.
Impacto na folha de pagamento
Para as entidades, o primeiro efeito do fim da 6×1 aparece na folha de pagamento. Para manter o mesmo horário de funcionamento, a empresa precisa de mais gente na equipe, e o salário de quem já trabalha continua igual.
“Quatro horas a menos por semana parecem pouco, mas, somadas pela equipe inteira, a cada dez funcionários é um a mais na folha. A porta tem de continuar aberta no mesmo horário”, explica a presidente da AEMFLO e da CDL São José, Cintia Pieri.
Reorganização das escalas e desafios operacionais
O segundo efeito está nas escalas. Quem abre aos sábados e domingos terá de redesenhar turnos e folgas, e as entidades citam a dificuldade de encontrar profissional qualificado para cobrir os horários.
A mudança alcança comércio, serviços, turismo, alimentação, transporte, saúde e indústria, mas pesa mais sobre as micro, pequenas e médias empresas, que têm equipes enxutas e menos folga no caixa para absorver a despesa.
“Quem tem estrutura grande absorve melhor. O comerciante de bairro faz a conta no fim do mês e o caixa já está apertado.”, diz Cintia.
Reflexos para empresas e consumidores
As entidades avaliam que o repasse pode chegar ao consumidor e que o corte de pessoal reduz as vagas abertas na cidade. Também apontam menos dinheiro para investimento e risco para a continuidade de algumas atividades.
Regulamentação será acompanhada pelas entidades
Para a presidente, o processo teve pouco diálogo entre o setor produtivo, os representantes dos trabalhadores e o governo. A AEMFLO e a CDL São José dizem que vão acompanhar a regulamentação e cobrar segurança jurídica.
“A regra está aprovada. Agora a regulamentação precisa dar clareza ao empresário: como contar as horas, como organizar o descanso e o que vale para quem funciona nos fins de semana. Sem isso, cada empresa vai interpretar de um jeito”, afirma Cintia.